
Adelaide e a Rua
Adelaide olhava da janela, da triste rua em que morava, pessoas que iam e vinham de lugares desconhecidos. Pessoas que vinham de todas as direções e sentidos. Uma expressão sutilmente curiosa e exploradora tomava conta de seu rosto perdido naquela rua, onde pessoas o pisavam sem pena, mas ela parecia sentir prazer e tolerância pelas diversas marcas de sapatos evidentemente esculpidas em seu rosto. Apoiou seu braço frágil com o cotovelo na janela, com os dedos acariciava o queixo, olhava mais fixamente aquelas pessoas.
Talvez pessoas com penteados diferentes, sapatos diferentes, jeitos de andar diferentes, camisas diferentes, cores de pele diferentes. Adelaide não tinha certeza de quantas e quais eram essas diferenças, porém sabia que elas existiam, a única coisa que ela poderia afirmar com certeza era uma semelhança indiscutível, que ela por horas ali observava curiosa e mediocremente.
A única incoerência que não tornava aquelas pessoas que ali passavam puramente distintas era um rosto triste, faltava ali algum sorriso, alguma alegria. Todas estavam sutilmente sérias, como se sofressem de alguma mal que não podiam ver. Adelaide se debruçava na janela quanto passou a pensar sobre isso.
Lembrou-se de fatos, memórias, borrões de um passado não muito distante, isso lhe feriu violentamente o peito. Logo sua feição curiosa e exploradora virou tormento. Suplicava pelas lágrimas, porém essas não atendiam seu pedido. Sentiu uma enorme vontade de jogar-se daquela janela, que ocupava o quinto andar de um prédio, mas calculou que sobreviveria a queda. Passou a morder os lábios impacientemente, até que eles reclamassem e passassem a sangrar em protesto.
Inutilmente fechou os olhos, mas até quando tentava se afogar na própria amargura, podia ver aquelas pessoas tão pálidas centradas em pisar em seu rosto perdido naquela rua. Porém, não lhe dava mais prazer essa sensação, agora causava repulsa. Precisava respirar, abriu os olhos. Riu.
Pensou no real motivo que a fizera rir. Procurou no profundo das suas entranhas, fechou novamente os olhos. Remexia nos cacos de vidro de seu passado procurando uma resposta, ria, seu rosto estava divinamente e assustadoramente singelo. Quando tentava juntar os cacos de vidro, a dor consumia seu peito cruelmente. Quanto mais procurava, mais se perdia nos borrões de seu passado. Um pequeno sorriso lhe visitou o rosto, logo, em metamorfose, tornou-se um sorriso largamente impiedoso e alegre. Quando abriu os olhos para encarar a rua, seu olhar não desmentia o desequilíbrio de seu sorriso.
Agora se divertia enquanto remexia suas entranhas, não mais em busca da resposta, mas em busca do prazer que aquela dor avassaladora lhe proporcionava, seu físico parecia perfeitamente alegre, mas somente ela tinha noção da guerra destruidora que existia dentro de si. Aquelas pessoas podiam pisar no seu rosto enquanto passavam por aquela rua, porém Adelaide ria um riso supérfluo. Saiu da janela para se arrumar em frente o espelho.
Arrumou o cabelo enquanto fitava seu sorriso estampado, tentou ficar séria, mas seu sorriso era involuntário, parecia ter sido costurado e não mais sairia dali. Passou seu batom, ajeitou sua roupa, tudo enquanto abraçava dentro de si aquela angústia. Pegou sua bolsa, tirou dois comprimidos em cápsula, engoliu-os sem o auxílio de água, como era de costume, abriu a porta de seu apartamento e saiu.
Em meio a dor de seus pensamentos e a vulgaridade de seu sorriso, Adelaide lembra o que observava na janela, com seu sorriso era a vez dela de pisar no rosto de alguém que supostamente estaria observando aquela rua, naquele momento.