sábado, 17 de julho de 2010


Adelaide e a Rua

Adelaide olhava da janela, da triste rua em que morava, pessoas que iam e vinham de lugares desconhecidos. Pessoas que vinham de todas as direções e sentidos. Uma expressão sutilmente curiosa e exploradora tomava conta de seu rosto perdido naquela rua, onde pessoas o pisavam sem pena, mas ela parecia sentir prazer e tolerância pelas diversas marcas de sapatos evidentemente esculpidas em seu rosto. Apoiou seu braço frágil com o cotovelo na janela, com os dedos acariciava o queixo, olhava mais fixamente aquelas pessoas.

Talvez pessoas com penteados diferentes, sapatos diferentes, jeitos de andar diferentes, camisas diferentes, cores de pele diferentes. Adelaide não tinha certeza de quantas e quais eram essas diferenças, porém sabia que elas existiam, a única coisa que ela poderia afirmar com certeza era uma semelhança indiscutível, que ela por horas ali observava curiosa e mediocremente.

A única incoerência que não tornava aquelas pessoas que ali passavam puramente distintas era um rosto triste, faltava ali algum sorriso, alguma alegria. Todas estavam sutilmente sérias, como se sofressem de alguma mal que não podiam ver. Adelaide se debruçava na janela quanto passou a pensar sobre isso.

Lembrou-se de fatos, memórias, borrões de um passado não muito distante, isso lhe feriu violentamente o peito. Logo sua feição curiosa e exploradora virou tormento. Suplicava pelas lágrimas, porém essas não atendiam seu pedido. Sentiu uma enorme vontade de jogar-se daquela janela, que ocupava o quinto andar de um prédio, mas calculou que sobreviveria a queda. Passou a morder os lábios impacientemente, até que eles reclamassem e passassem a sangrar em protesto.

Inutilmente fechou os olhos, mas até quando tentava se afogar na própria amargura, podia ver aquelas pessoas tão pálidas centradas em pisar em seu rosto perdido naquela rua. Porém, não lhe dava mais prazer essa sensação, agora causava repulsa. Precisava respirar, abriu os olhos. Riu.

Pensou no real motivo que a fizera rir. Procurou no profundo das suas entranhas, fechou novamente os olhos. Remexia nos cacos de vidro de seu passado procurando uma resposta, ria, seu rosto estava divinamente e assustadoramente singelo. Quando tentava juntar os cacos de vidro, a dor consumia seu peito cruelmente. Quanto mais procurava, mais se perdia nos borrões de seu passado. Um pequeno sorriso lhe visitou o rosto, logo, em metamorfose, tornou-se um sorriso largamente impiedoso e alegre. Quando abriu os olhos para encarar a rua, seu olhar não desmentia o desequilíbrio de seu sorriso.

Agora se divertia enquanto remexia suas entranhas, não mais em busca da resposta, mas em busca do prazer que aquela dor avassaladora lhe proporcionava, seu físico parecia perfeitamente alegre, mas somente ela tinha noção da guerra destruidora que existia dentro de si. Aquelas pessoas podiam pisar no seu rosto enquanto passavam por aquela rua, porém Adelaide ria um riso supérfluo. Saiu da janela para se arrumar em frente o espelho.

Arrumou o cabelo enquanto fitava seu sorriso estampado, tentou ficar séria, mas seu sorriso era involuntário, parecia ter sido costurado e não mais sairia dali. Passou seu batom, ajeitou sua roupa, tudo enquanto abraçava dentro de si aquela angústia. Pegou sua bolsa, tirou dois comprimidos em cápsula, engoliu-os sem o auxílio de água, como era de costume, abriu a porta de seu apartamento e saiu.

Em meio a dor de seus pensamentos e a vulgaridade de seu sorriso, Adelaide lembra o que observava na janela, com seu sorriso era a vez dela de pisar no rosto de alguém que supostamente estaria observando aquela rua, naquele momento.

sábado, 10 de julho de 2010

Momentos



Em todos os momentos,
Pensamos como seria,

O que deveríamos ter feito,

E a razão de tudo ser assim.

Em todos os momentos,
Eu penso no porquê,
Penso no motivo do vento
Tocar suavemente a minha janela.
Penso como seria se ele não a tocasse.
Porém se o vento não a tocasse,
Essa não seria uma janela,
Pois não desempenharia a função de uma janela, oras!
Seria algo inútil.
Além disso, minha janela gosta do vento!
Ah sim, se ela não gostasse, acredito que ela sairia dali,
Ou pelo menos não seria uma janela.
Uma janela enfrenta tudo, a minha suporta a chuva,
o sol, o granizo e isso quando chove granizo!
(Faz um bom tempo em que não vejo cair pedras do céu.)
A janela não só suporta,
Acolhe também,
Ela acolhe a primeira alegria da manhã,
E a coloca para dentro de si,
Como se a respirasse, e a transmite rapidamente para quem ela diz proteger.
A janela tem sentimentos,
Pelo menos a minha tem!
Vocês precisam ver como ela se alegra quando a abrem num dia de sol!
É aí, o seu merecido descanso.
Mas a janela é solitária também,
A porta não lhe dá atenção...
Por isso a janela enterra!
É quando a sua tristeza está transbordando,
Não culpo a porta; culpo o pedreiro!
Ou até mesmo o arquiteto, o engenheiro!
Todos deveriam saber, que
A janela precisa da porta, e a
Porta da janela,
Noto isso, pois minha porta chora.
Em silêncio.
Quando o vento a toca,
Pois ela sabe que o vento toca a janela,
E se sente a única que não a toca.
E a janela sente o mesmo.
De tão triste minha janela diz que não vai mais se abrir,
Minha porta diz que não irá deixar ninguém entrar.
Mas chega a manhã.
A manhã é sempre alegre, por que será?
Ela tem o Sol, as nuvens, aquela cor admirável.
Então minha janela não se importa mais, ela até acha graça,
Ao ver todos dançando pra ela.
Talvez tenha que ser assim,
A janela deva ser sozinha, ora triste, ora alegre, e a porta, na maioria das vezes, triste.
E a manhã sempre alegre, com o vento tocando a todos, sem direção.