Porém não adiantava, procurava por si mesma enquanto bebia freneticamente aquela xícara de café. E não se encontrava. Talvez estivesse perdida na noite anterior, em meio de pessoas desprovidas de sentimentos. Naquela noite, ninguém sabia o que eram “sentimentos”. Enquanto deliciava-se com o último gole daquele café, Adelaide sabia que era preciso reunir-se e consertar-se.
Tentou sorrir, mas aquele sorriso não lhe era familiar, assim como as olheiras e os cabelos tingidos. Suas pernas estavam transparentes, qual terá sido a última vez que tomara sol? Ficou imóvel em frente aquele reflexo por três minutos. Três eternos minutos. Quando conseguiu desviar o olhar daquela imagem, sentiu-se aliviada. Era como se pudesse finalmente respirar após quase se afogar em seu próprio tormento. Seus batimentos estavam acelerados, talvez pela sensação de quase morte que aquela experiência lhe proporcionou.
Sentou-se. E de costas para o espelho, escovava os cabelos. Quase como uma terapia, passava lentamente a escova, enquanto seus lábios sorriam involuntariamente e seus olhos nada miravam, estavam fechados, olhando para dentro de si. Adelaide desejou no seu íntimo, que aquele momento fosse eterno. Mas não passava de uma utopia de sua mente, passar seus eternos minutos escovando seus longos cabelos.
E se arrumando para mais um dia, praticamente com os olhos fechados, se sentia bem. Talvez tivesse encontrado alguma parte de si durante os eternos minutos que passaram, mas isso não lhe era mais prioridade. Precisou abrir os olhos. E novamente em frente ao espelho, precisava de foco.
Sentiu-se perdida novamente,
mas logo abriu o estojo que estava cuidadosamente fechado e arrumado em sua
penteadeira. Pegou o seu batom vermelho. Com muita atenção, passava-o lentamente
em seus lábios, como se fosse giz de cera. Quando terminou, sorriu involuntariamente como de
costume. Fitando a imagem, ficou feliz por encontrar uma
parte de si. Todavia, não era nenhuma das partes dentro de si, era apenas uma parte de fora. Olhando quase que hipnotizada para sua própria imagem,
cessou as buscas em seu fragilizado interior.(...)
E durante muitos eternos minutos, o seu dia estava chegando ao fim. Cansada, tentava retornar à sua casa. Pegou um cigarro e gentilmente o colocou em sua boca. Enfim, sentia-se aquecida. Não era mais única. Fincava as unhas nos seus braços, para que seus eternos minutos passassem o mais rápido possível e estivesse segura em seu lar de concreto.
(...)
Finalmente era um novo dia, então Adelaide fez nessa manhã, exatamente o que fazia todas as manhãs. Espreguiçou-se. Esticou as pernas. Deitou novamente, relaxou. Com os olhos fechados tentou raciocinar sobre o que aconteceu na noite anterior. Torcia para que tudo tivesse sido um mero pesadelo...



